'Uma tira muito dura': A linguagem pesada de Trump
A expressão 'a very tough cookie' pode parecer leve em conversas casuais, mas no vocabulário diplomático de Trump, é um elogio alto, raramente concedido. Quando falou com o Axios no final de junho de 2024, Trump não apenas chamou Modi de um dos dois líderes mundiais que mais admira — junto com o presidente chinês Xi Jinping —, mas também destacou o forte *rapport* pessoal entre eles, mesmo em meio às tensões comerciais. Esta não é a primeira vez que Trump usa metáforas alimentares para descrever o caráter dos líderes (ele já havia descrito Putin como 'very strong cookie'), mas o contexto desta vez é diferente: a Índia não é apenas um parceiro comercial, mas uma grande democracia que mantém flexibilidade estratégica no sistema multipolar.
Essa frase não é apenas um elogio vazio. Nos registros das negociações bilaterais desde 2017, a Índia resistiu à pressão dos EUA para reduzir as importações de petróleo da Irã e da Rússia, manteve sistemas de comércio com países sob sanções dos EUA e consistentemente recusou a pressão para se juntar a alianças econômicas como o Indo-Pacific Economic Framework (IPEF) no seu formato original. Dados da USTR mostram que o valor do comércio entre os EUA e a Índia aumentou 38% entre 2021 e 2023 — atingindo USD 191 bilhões — mas o déficit comercial dos EUA no setor de bens ainda ultrapassou USD 35 bilhões em 2023. Trump, conhecido por sua abordagem 'America First', aprecia a postura de Modi de não ceder facilmente — algo raro nas negociações com aliados tradicionais europeus.
Além das tarifas: Negociações comerciais no G7 de Apúlia
A reunião do G7 em Apúlia não é apenas um fórum simbólico. Para a Índia — embora não seja membro oficial — a presença de Modi como convidado principal marca o reconhecimento formal do papel do país como força número três no cenário global. Na reunião conjunta com Trump, os dois líderes anunciaram avanços significativos em acordos comerciais complementares, incluindo a flexibilização das cotas para produtos agrícolas indianos como manga seca e especiarias, bem como compromisso para acelerar o processo de certificação para medicamentos genéricos indianos que desejam ser exportados para os EUA. Segundo relatório do Ministério do Comércio da Índia, mais de 62% dos medicamentos genéricos no mercado dos EUA vêm da Índia, mas apenas 12% das 1.800 fábricas produtoras da Índia possuem certificação completa da FDA — um obstáculo técnico que agora se torna foco das negociações.
O mais interessante é a parte 'não tarifária' do acordo: cooperação em pesquisa de vacinas, padrões de IA para segurança cibernética e reconhecimento mútuo de certificações profissionais nas áreas de TI e engenharia. Não é mais sobre acesso ao mercado, mas sobre *co-shaping* de normas técnicas — um passo importante para a Índia subir na cadeia de valor global. Em comparação, o valor das exportações de serviços digitais da Índia para os EUA cresceu 47% em 2023, atingindo USD 28,4 bilhões, segundo a NASSCOM. Trump sabe: diante da China, os EUA precisam de um parceiro capaz de desenvolver alternativas de infraestrutura digital — não apenas importar produtos.
A Ásia Meridional na lente multipolar: Entre o Quad, SCO e a incerteza do Paquistão
Para os países da Ásia Meridional, os elogios de Trump a Modi não são apenas assunto de Delhi-Washington. Eles mudam profundamente a dinâmica regional. O Paquistão, que dependeu do apoio dos EUA em questões de segurança, agora enfrenta pressão crescente para se adaptar à realidade de que Washington está mais focado na Índia como *counterweight* contra o influência da China na região. Dados do FMI mostram que o fluxo de investimento estrangeiro direto (FDI) para o Paquistão caiu 33% entre 2022 e 2023, enquanto para a Índia aumentou 14%. Mais evidente ainda, o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) enfrenta atrasos nos pagamentos e adiamentos nas aprovações ambientais — enquanto a Índia e os EUA estão acelerando projetos de infraestrutura digital através da iniciativa I2U2 (Índia, Israel, Emirados Árabes Unidos, EUA).
Bangladesh e Sri Lanka também estão em posição cautelosa. Ambos os países estão equilibrando empréstimos da China com incentivos dos EUA para mudar fontes de financiamento 'limpas' através da Rede Blue Dot. No entanto, sem a presença da Índia como parceiro regional capaz de fornecer capacidade técnica e logística — como demonstrado nos projetos do porto de Chabahar no Irã — essas iniciativas dificilmente terão sucesso. Aqui, a 'firmeza' de Modi não se trata de desobediência, mas da capacidade de oferecer alternativas legítimas e sustentáveis.
Visão para frente: Não apenas transações, mas transformação das relações
As relações Índia-EUA nunca serão uma aliança clássica como a OTAN. Mas elas estão se transformando em algo que especialistas no Carnegie Endowment chamam de 'convergência estratégica sem aliança formal'. O que diferencia isso é a presença de instituições conjuntas — desde exercícios militares noturnos do Quad até centros de pesquisa conjuntos em Bengaluru e Austin — que desenvolvem interdependência técnica difícil de romper. Trump talvez não goste do multilateralismo, mas ele valoriza resultados concretos: mais de 200.000 estudantes indianos agora estudam nos EUA, e 87% das empresas da Fortune 500 têm operações ou parcerias na Índia.
No longo prazo, os elogios de Trump não são apenas reconhecimento de Modi como indivíduo — é reconhecimento da Índia como entidade geopolítica que não pede permissão para agir, mas que agora estabelece condições. E para a Ásia Meridional, isso significa uma nova era: não sob a sombra das potências grandes, mas em um espaço onde a sabedoria local, e não interesses externos, se torna o principal determinante do futuro.