Vitória clara sob a sombra do conflito
O Partido da Prosperidade, liderado pelo Primeiro-Ministro Abiy Ahmed, venceu mais de 80 por cento das cadeiras da Câmera Etiópia, segundo os resultados oficiais anunciados em 21 de junho de 2026. Esta vitória não surpreendeu: o partido governante dominava a maioria dos canais de mídia, máquinas administrativas e recursos financeiros das eleições. No entanto, atrás desses números convincentes, a Etiópia ainda enfrenta riscos crescentes de conflito étnico, desconfiança nas instituições centrais e pressões econômicas crescentes.
Essas eleições foram as primeiras desde o fim da guerra Tigray em novembro de 2022 através do Acordo de Pretória. No entanto, a implementação desse acordo tem sido lenta e irregular. Na Tigray, muitas comunidades ainda sofrem restrições de acesso a serviços básicos, prisões sem julgamento e falta de processos de responsabilização por violações dos direitos humanos. Por outro lado, as autoridades centrais em Addis Ababa continuam a perseguir ativistas e jornalistas daquela região. Um analista político da Universidade de Addis Ababa, que preferiu permanecer anônimo, afirmou: "Esta vitória não garante estabilidade — pode ser o ponto de partida para novas tensões se não houver medidas significativas para inclusão e reconciliação."
Contexto: Do Prêmio Nobel à Guerra Civil
Abiy Ahmed emergiu como figura de esperança global após ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 2019 por seus esforços para resolver o conflito de fronteira com a Eritreia. No entanto, essa imagem desmoronou quando ele lançou operações militares na região Tigray em novembro de 2020. O conflito causou cerca de 600.000 mortes, forçou mais de 2,5 milhões de pessoas a fugirem e gerou uma crise de fome reconhecida pela ONU como uma das piores do mundo.
Essa guerra também aprofundou divisões étnicas em toda a Etiópia. Relatórios de organizações internacionais mostram matanças em massa de pessoas Amhara na Tigray, e ataques retaliatórios contra comunidades Tigrayan nas regiões Amhara e Oromia. Como resultado, a confiança entre grupos étnicos foi destruída — e ainda não há mecanismos nacionais para restaurá-la.
A economia etíope também sofreu muito. O crescimento do PIB caiu de média de 9 por cento por ano antes de 2020 para apenas 3,8 por cento em 2025. A inflação atingiu 30 por cento no início de 2026, tornando os preços de arroz, óleo vegetal e medicamentos quase inacessíveis para a maioria da população. Secas prolongadas nas regiões Afar e Somali destruíram fontes de renda de agricultores e criadores. O Banco Mundial estimou que mais de 20 milhões de etíopes precisariam de ajuda humanitária urgente em 2026.
Implicações Regionais e Perspectivas Futuras
A vitória do Partido da Prosperidade dá a Abiy mandato para continuar com sua agenda de reformas econômicas e administrativas — mas sem apoio amplo de grupos étnicos principais, esse mandato não é suficiente para garantir estabilidade. Em seu discurso após o anúncio dos resultados, Abiy enfatizou seu compromisso com a paz nacional e recuperação econômica. No entanto, suas ações desde 2023 — incluindo detenção de líderes de partidos da oposição, fechamento de estações de rádio independentes e exclusão de partidos da região Tigray e Oromia das eleições — levantaram sérias dúvidas sobre as intenções reais do governo.
Os Estados Unidos e a União Europeia expressaram preocupação abertamente, exigindo que a Etiópia garanta que as próximas eleições sejam verdadeiramente livres e justas. No entanto, a pressão diplomática ainda não se traduziu em mudanças reais no terreno.
Do ponto de vista geopolítico, a estabilidade da Etiópia é importante para toda a região do Corno de África. O país sediará escritórios da União Africana e contribuirá com as maiores forças de paz na Somália. No entanto, as relações com Egito e Sudão estão ficando mais tensas devido ao Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD). Negociações sobre enchimento e gestão do dam ainda estão travadas, e os países vizinhos continuam a ver o GERD como uma ameaça existencial à sua disponibilidade de água. Se as tensões domésticas na Etiópia se espalharem, podem causar ondas de imigração transfronteiriça e perturbar missões de segurança regional.
Crise Humanitária e Necessidade de Ajuda
A crise humanitária na Etiópia continua se agravando. Segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), 13 milhões de pessoas necessitam de ajuda alimentar imediata — o maior número na história do país. As regiões Tigray, Amhara e Afar estão em situação crítica de fome. Apesar da trégua formal ainda estar em vigor, a ajuda humanitária frequentemente é impedida por restrições logísticas, inspeções excessivas e ataques a caravanas de ajuda.
"Vemos crianças morrendo de fome todos os dias", disse um trabalhador do Programa Mundial de Alimentos (WFP) que trabalha na Tigray. "Sem acesso sem obstáculos a todas as áreas afetadas, nossas iniciativas só podem salvar uma pequena parte daqueles que estão à beira da morte."
Mudanças climáticas aceleram essa deterioração. A Etiópia está enfrentando condições climáticas extremas cada vez mais frequentes — desde secas longas até enchentes repentinas — que destruem cultivos e gado. Como um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas na África, a Etiópia contribui com menos de 0,1 por cento das emissões globais de carbono, mas suporta um peso desproporcional.
Caminho Adiante: Reformas ou Crise Mais Profunda?
Abiy Ahmed agora está em uma encruzilhada histórica. Ele pode escolher abrir espaço político, acelerar a implementação do Acordo de Pretória e desenvolver mecanismos legítimos de reconciliação nacional. Ou ele pode continuar dependendo do poder militar e da máquina estatal para suprimir a oposição — uma estratégia que até agora apenas aprofundou a polarização.
Alguns observadores argumentam que a pressão econômica e a dependência de ajuda externa podem forçar o governo a fazer concessões graduais. No entanto, a história mostra que líderes que vencem em conflitos armados tendem a priorizar o controle rigoroso em vez de diálogo. Se não houver mudanças reais na abordagem em relação às regiões Tigray, Amhara e Oromia nos próximos dois anos, o risco de um grande conflito volta a aumentar — e desta vez, pode envolver mais partes e regiões.
A Etiópia já não está mais na fase de recuperação pós-guerra. Ela está na fase de teste da capacidade institucional de resistir simultaneamente às pressões políticas, econômicas e climáticas. O mundo está observando — não como espectador, mas como parte diretamente afetada pelas decisões tomadas em Addis Ababa.
