Naquela manhã, Darman, motorista de ônibus em Pulo Gadung, Jakarta Oriental, olhou para o quadro de preços das bombas de combustível com as sobrancelhas franzidas. O Premium subiu R$400 em três dias. "Dizem que é por causa do petróleo importado", disse ele, limpando o suor antes de voltar ao volante. Milhares de quilômetros distante, no extremo do Estreito de Hormuz, uma decisão não tomada está determinando o destino do combustível no tanque do seu ônibus.
Tarifas do Irã ainda pendentes
Os Estados Unidos ainda não garantem que o Irã será proibido de cobrar tarifas sobre navios que passam pelo Estreito de Hormuz após o término do período de transição de 60 dias no final de agosto. O acordo temporário entre Washington e Teerã — assinado no início do mês — apenas adiou a decisão, mas não resolveu o problema.
"Ainda estamos em negociação", disse um oficial do Departamento de Estado dos EUA à Reuters, sem revelar o nome. "O Irã tem interesses econômicos significativos lá, e a estabilidade regional não pode ser ignorada." O Estreito de Hormuz não é apenas uma via aquática: 20% do consumo global de petróleo passa por ali diariamente. Se as tarifas forem aplicadas, os custos de transporte do petróleo bruto aumentarão — e esse peso será transferido para as bombas de combustível em toda a Ásia Sudeste.
Importação de petróleo da Indonésia: Frágil e exposta
A Indonésia agora é importadora líquida de petróleo — apesar de ter sido membro da OPEP. Dados do Ministério de Energia e Recursos Minerais mostram que, em 2025, o país importa cerca de 600.000 barris de petróleo bruto por dia, a maioria vindo da Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos — todos dependentes do Estreito de Hormuz.
"Nossa dependência dessa rota é muito alta", afirmou o economista energético da Universidade da Indonésia, Faisal Basri, em uma discussão online na semana passada. "O impacto não é apenas nas bombas de combustível, mas nos preços do arroz, custos de transporte e salários dos trabalhadores que já não são suficientes para comer."
O GLP também sofre. A Indonésia importa gás liquefeito da Catar e dos Emirados Árabes Unidos — dois países cujos navios precisam passar pelo estreito. Analistas estimam que uma tarifa adicional de 5% por tonelada de carga pode elevar os preços do GLP no país em até 7–10%, um golpe direto para 30 milhões de famílias pobres que dependem das botijas azuis para cozinhar.
Acordo temporário que não traz tranquilidade
O acordo entre os EUA e o Irã surgiu de uma reunião secreta no Omã no meio do mês de maio. O Irã concordou em parar temporariamente a enriquecimento de urânio de alto teor; os EUA aliviaram as sanções sobre seguros de navios e transferências financeiras. Mas sobre o Estreito de Hormuz? Foi adiado para a próxima rodada. O período de transição de 60 dias apenas adiou a decisão — não eliminou o risco.
Mercados reagiram rapidamente. Os preços do petróleo bruto Brent subiram 3% em dois dias de negociação, aproximando-se de US$95 por barril. O Goldman Sachs alertou: se as tarifas forem realmente implementadas, os preços podem atingir US$105 em curto prazo.
Medidas limitadas, pressões crescentes
O Ministério das Relações Exteriores da Indonésia já expressou preocupações oficiais. "Estamos incentivando todas as partes a manter a estabilidade do Estreito de Hormuz", disse o porta-voz do ministério em uma coletiva de imprensa em Jacarta, na quarta-feira. No entanto, medidas concretas ainda são poucas.
O ministro de Energia e Recursos Minerais, Bahlil Lahadalia, mencionou cenários de diversificação de fornecimento — como comprar petróleo da Nigéria ou Angola — mas reconheceu que a logística é mais cara e leva tempo. Outras alternativas: acelerar a transição para fontes renováveis e reduzir os subsídios de combustíveis que pesam no orçamento nacional. No entanto, essas medidas são sensíveis. "É hora de sermos sérios em reduzir a dependência do petróleo importado", afirmou Faisal Basri. "O Estreito de Hormuz não é apenas geografia — ele reflete a fragilidade do sistema energético nacional."
Para Darman, essa incerteza significa que ele precisa cortar o dinheiro do lanche das crianças ou adiar a troca de pneus. "Minha esperança é que o governo consiga controlar os preços. Mas se o petróleo estrangeiro subir, o que fazer?" disse ele em voz baixa, antes de ligar o motor do ônibus. Na mesa de negociação distante, diplomatas ainda discutiam. E em cada bomba de combustível em Jacarta, Surabaya ou Makassar — a decisão deles já começa a ser sentida no bolso do povo.