A Ordem da Águia Branca é devolvida — um sinal diplomático raro
A notícia se espalhou rapidamente entre os funcionários presidenciais em Kiev: a Polônia oficialmente revogou a Ordem da Águia Branca do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. A condecoração, concedida em 2022 como reconhecimento à resistência da Ucrânia diante da invasão russa, foi agora recolhida com base em 'não honra adequada a uma entidade histórica responsável pelos crimes contra cidadãos poloneses'. Zelensky respondeu em menos de 24 horas — devolvendo formalmente a medalha. Essa ação não é apenas um protesto simbólico; ela marca uma fissura na base da confiança entre dois países que até então eram a coluna vertebral do apoio ocidental à Ucrânia.
A causa direta do conflito foi a decisão do Ministério da Defesa da Ucrânia no início de 2024 de renomear a 103ª Brigada Mecanizada Independente como 'Brigada UPA', em homenagem ao Exército dos Partisanos Ucranianos (UPA). Para a Polônia, a UPA não é um combatente pela independência — mas sim um perpetrador de genocídio. Entre 1943 e 1945, unidades da UPA mataram cerca de 100.000 cidadãos poloneses nas regiões da Volínia e Galícia Oriental. Varsóvia há muito tempo classificou esses eventos como genocídio e proibiu qualquer forma de glorificação dessa organização sob sua lei histórica.
Feridas históricas que ainda não cicatrizaram
A história da UPA não pode ser separada do contexto das turbulências da Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial. Como ala armada da Organização Nacionalista Ucraniana (OUN), a UPA lutou contra a ocupação soviética e polonesa — mas também realizou campanhas sistemáticas de violência para 'expulsar' os cidadãos poloneses das áreas que reivindicava como terra ucraniana. As represálias por parte da Polônia e do exército polonês sob o governo temporário também resultaram em perdas entre os cidadãos ucranianos. No entanto, na narrativa oficial polonesa, a Volínia permanece como um trauma nacional — um episódio que não pode ser rehabilitado através de honras modernas.
Essa questão não é nova. Em 2016, a Polônia impediu um cerimônia de memória da UPA em Varsóvia. Em 2017, a Ucrânia aprovou uma lei que reconheceu combatentes pela independência, incluindo membros da UPA, como 'heróis nacionais'. A tensão diminuiu temporariamente quando a guerra russo-ucraniana começou em fevereiro de 2022. A Polônia tornou-se o maior apoiador da Ucrânia: porta de entrada principal para ajuda militar ocidental, anfitriã de mais de três milhões de refugiados e conselheiro estratégico importante nas operações militares.
Ondas de resposta em Kiev
A decisão da Polônia não foi apenas dirigida a Zelensky. Ela provocou reações em cadeia entre a elite ucraniana. Os ex-presidentes Petro Poroshenko e Viktor Yushchenko — ambos recebedores da Ordem da Águia Branca — devolveram suas condecorações dentro de 48 horas. O ministro ucraniano das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, descreveu a ação de Varsóvia como 'um grande erro que beneficia diretamente a Rússia'. Ele enfatizou que a divisão entre aliados em um momento crítico só enfraquece a posição da Ucrânia diante da OTAN e da UE.
No entanto, vozes críticas também surgiram internamente. Alguns historiadores e analistas de defesa em Kiev reconhecem que a renomeação da brigada militar foi uma ação provocativa e mal escolhida. A Ucrânia depende do apoio militar e logístico da Polônia — incluindo investimentos nos sistemas de defesa aérea, treinamento de forças especiais e acesso aos portos marítimos no Báltico através da região polonesa. Essa tensão tem potencial para corroer a confiança entre os formuladores de políticas europeus, que já enfrentam pressão política doméstica devido ao esgotamento da guerra.
Riscos geopolíticos no meio da guerra
A crise surge em um momento sensível: a Ucrânia está lançando contra-ataques ao longo da fronteira leste e sul, enquanto tenta acelerar a integração com as estruturas de segurança europeias. A Polônia é um dos países mais vocalizados na exigência de que a UE acelere o processo de adesão da Ucrânia e endureça as sanções contra a Rússia. Se as relações bilaterais continuarem a piorar, isso pode interromper o fluxo de suprimentos militares, reduzir a velocidade dos treinamentos conjuntos e enfraquecer a coordenação diplomática em fóruns como a OTAN e o Conselho da Europa.
Na esfera pública, o apoio da Polônia à Ucrânia ainda é forte — mas não mais inabalável. Uma pesquisa CBOS de novembro de 2023 mostrou que o apoio à aceitação de refugiados ucranianos caiu de 78% (2022) para 63%, especialmente entre eleitores do partido conservador Lei e Justiça (PiS). Esse incidente pode aprofundar a divisão de percepção — não apenas entre os governos, mas também entre os cidadãos comuns.
Caminho à frente: pragmatismo sobre narrativas
Apesar do tom firme nos meios de comunicação, canais diplomáticos permanecem abertos. O ministro polonês das Relações Exteriores, Radosław Sikorski, e Dmytro Kuleba tiveram conversas telefônicas e encontros informais em Bruxelas na semana passada. Ambas as partes não anunciaram resultados concretos — mas declararam compromisso com 'manter a integridade da cooperação estratégica'. A realidade geopolítica não permite rompimentos: a Ucrânia não pode perder acesso à infraestrutura logística polonesa; a Polônia também não quer perder seu influência como conselheiro principal da Ucrânia no cenário europeu.
A saída pode estar em um compromisso com princípios: a Ucrânia pode evitar usar o nome UPA no contexto institucional militar, sem alterar as leis históricas existentes; a Polônia pode reconhecer que a interpretação histórica da Ucrânia sobre a UPA tem raízes na experiência soviética — não no ódio à Polônia. A paz verdadeira na região não começa com a eliminação das diferenças históricas, mas com a gestão aberta — sem deixá-las se tornarem armas políticas.
Para os jornalistas no campo, o clima em Kiev permanece calmo. Não há manifestações nas ruas, nem declarações duras do parlamento. Mas nos consulados e salas de reuniões ministeriais, há preocupação real: feridas históricas não são apenas um peso do passado — elas podem se tornar brechas exploradas pelos inimigos de hoje.
