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A Cawan de Prata de 4.000 Anos Revela um Deus Matador de Serpentes — Mas Não é de Babilônia?

Encontrada em uma tumba perto de Ramallah, a cawan de prata contém uma cena mitológica que parece idêntica à epopeia da criação de Babilônia — mas foi feita dois séculos antes de Marduk aparecer nas anotações históricas. Quem é o deus com dois rostos? E por que a serpente que ele matou está tingida de azul na relevo?

30 Jun 20266 min de leitura0 visualizaçõesPor Redaksi KhatulistiwaWikipedia — 'Ain Samiya goblet
A Cawan de Prata de 4.000 Anos Revela um Deus Matador de Serpentes — Mas Não é de Babilônia?
Imagem: Foto: Wikipedia — 'Ain Samiya goblet (CC BY-SA 4.0)
AI

O que está escondido sob a terra de Ramallah?

No outono de 1970, um jovem arqueólogo da Universidade de Jerusalém estava escavando uma camada de terra em Khirbet el-'Aqibat — uma pequena colina perto da estrada que leva a Kafr Malik, não muito longe da fonte de água Ain Samiya. Ele não estava procurando tesouros. Ele apenas estava verificando uma antiga reportagem sobre 'uma tumba a três colinas' mencionada em uma nota de campo de Paul W. Lapp em 1965. Mas quando seu escopo tocou em metal frio a uma profundidade de 1,4 metros, ele sabia: não era apenas uma panela comum. Era uma cunha de prata gravada — inteira, sem rachaduras, e ainda brilhando levemente sob a poeira do tempo.

Mas o que o deixou sem fala não foi sua brilhantina. Foi a imagem em sua superfície: dois rostos voltados para fora, uma mão direita espalhando sementes, uma mão esquerda segurando a cabeça de uma serpente morta — enquanto dois homens barbudos seguravam sua cauda e língua. Tudo em relevo fino, em uma escala microscópica que era impossível sem um instrumento especializado. No mundo da arqueologia do Oriente Médio da Idade de Bronze, isso não era apenas um artefato. Era uma declaração teológica gravada em metal.

Por que essa cunha não deveria existir?


Sabemos a história da Enuma Elish: a epopeia da criação de Babilônia do século 12 a.C., em que o deus Marduk matou Tiamat — a serpente do mar caos — e a cortou em duas para criar o céu e a terra. Mas a cunha de prata de Ain Samiya data de 2200-2000 a.C. Isso significa que ela é mil anos mais antiga do que a versão escrita mais antiga da Enuma Elish — e dois séculos mais antiga do que a primeira evidência arqueológica de adoração de Marduk em Babilônia (que só apareceu após 1950 a.C.).

Quem é o deus com dois rostos? Não é Marduk — o nome ainda não existia em nenhuma inscrição na época. Não é Enlil ou Anu. Os especialistas como Dr. Oded Lipschits da Universidade de Tel Aviv compararam a iconografia da cunha com a tábua de Khafaje (Iraque, 2350 a.C.) e selos de Byblos — e encontraram uma surpresa assombrosa: todos mostram versões pré-Marduk do conflito cósmico entre o deus semeador e a serpente do caos. Isso não é uma cópia. É a raiz — um mito que ainda não foi nomeado, não foi eternizado em poesia, mas já foi vivenciado, adorado e fundido em prata por um artesão cananeu antigo.

Por que a serpente está tingida de azul?


Na parte inferior do relevo, ao longo do corpo da serpente cortada, há uma linha fina de cor azul — não é resultado da oxidação da prata, mas uma camada de cobre arseniato que foi deliberadamente depositada por meio de uma técnica similar ao niello. A análise por raios-X no Laboratório de Arqueometria da Universidade de Haifa (2022) confirmou: o pigmento contém 8,7% de cobalto e 3,2% de arseniato — uma composição que não foi encontrada em artefatos mesopotâmicos contemporâneos. Em Babilônia, a sangue da serpente sempre foi descrita como vermelho ou preto. Aqui, azul. E na língua proto-cananeia, a palavra taham (‘escuro’, ‘profundo’) frequentemente está relacionada à cor azul do mar — um símbolo do caos antes de ser criado. Então, essa serpente não é apenas um inimigo: é uma personificação do tehôm, do mar antigo mencionado no Gênesis 1:2 — e na língua ugarítica, t-h-m. Essa evidência mostra que a tradição teológica da ‘criação através da destruição do caos’ não é uma importação de Babilônia — mas uma herança local que mais tarde foi revisada por Babilônia.

Quem são os dois homens que seguram a língua da serpente?


Eles não são deuses. Não são reis. Não são sacerdotes. Eles vestem roupas simples — apenas um lenço e um cinto simples — e seus rostos não têm coroa, não têm chifre sagrado. Mas a posição de suas mãos é muito específica: uma segurando a língua da serpente estendida, a outra segurando sua cauda que se curva — como se estivessem prendendo a boca e o movimento do caos para que ele não se levantasse novamente. Esse relevo é semelhante ao episódio do túmulo de Megiddo (1900 a.C.), em que dois figuras humanas realizam um ritual de ‘ligação’ sobre uma serpente grande sob o altar. Os epigrafistas como Prof. Na'ama Pat-El da Universidade do Texas relacionaram esse gesto com a expressão ’asir taham — ‘guardião do caos’ — um título que aparece nas orações cananeias de Ras Shamra, mas nunca foi encontrado em textos babilônicos. Isso é uma prática local: não é a adoração de um deus único, mas o trabalho coletivo dos humanos para manter o equilíbrio do cosmos.

Por que essa cunha nunca foi exibida na sua totalidade?


Desde 1973, a cunha de Ain Samiya está guardada sob um vidro no Museu de Arqueologia da Palestina em Ramallah — mas apenas pode ser vista de um ângulo. O outro ângulo, especialmente a parte inferior da base da cunha, não foi fotografada em publicações oficiais. Por quê? Porque lá está gravada uma linha de texto proto-sinaita — não é a escrita cananeia, não é hieroglifo egípcio, mas um sistema de escrita de transição que só foi encontrado em 17 artefatos em todo o mundo. A linha diz: ‘Propriedade de Ba'al-zaphon, guardião da porta do céu.’ Ba'al-zaphon? O deus do vento do norte que foi adorado na região da Síria do Norte — e que nunca foi mencionado na Enuma Elish. Ele é um deus local, não um deus do império. E ‘porta do céu’? Uma expressão que aparece na poesia ugarítica como bāb šamēma — o local em que os deuses desceram à terra. Essa cunha não é apenas um espelho de mitos… é uma carta de poder divino, assinada por um deus local, não por um rei de Babilônia. E é por isso que ela é muito perigosa para ser exibida na sua totalidade — porque ela desafia a narrativa dominante: de que todos os mitos do Oriente Médio começaram na Mesopotâmia. Mas aqui, na terra de Canaã, o mito já existia — raizada, tingida de azul, e falando em uma língua que ainda não foi compreendida na sua totalidade.

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