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Por que 72 navios fantasmas da Coreia do Norte encalharam no ano passado — e ninguém sobreviveu?

Cada ano, dezenas de barcos de madeira velhos da Coreia do Norte aparecem nas praias do Japão — vazios, carcomidos e frequentemente com corpos. Não é uma história de fantasmas. É a história real da fome, das ondas fortes e de uma política de pesca que nunca foi mencionada na Assembleia Geral das Nações Unidas. O que impulsiona os pescadores a navegar até o ponto de não retornar?

30 Jun 20266 min de leitura0 visualizaçõesPor Redaksi KhatulistiwaWikipedia — North Korean ghost ships
Por que 72 navios fantasmas da Coreia do Norte encalharam no ano passado — e ninguém sobreviveu?
Imagem: Foto: Wikipedia — North Korean ghost ships (CC BY-SA 4.0)
AI

Os barcos não são de um filme — eles chegam com o cheiro de mar podre e ossos secos

Imagine você caminhando pela praia da Prefeitura de Akita, no Japão, em uma manhã fria de novembro. As ondas estão calmas. O ar está cheio de sal e musgo. De repente, algo preto escuro aparece preso entre as pedras de coral — não é madeira comum, mas a quilha de um barco de madeira, rachada, coberta de crosta de sal e musgo escuro. Acima disso? Nenhum som de motor. Nenhuma sinal de socorro. Nenhum som de humanos. Só um: ossos humanos sentados na amurada, ainda segurando a corda do leme que já está apodrecendo.

Isso não é uma cena de The Ring. É um relatório oficial da Agência de Pesca do Japão — e isso acontece mais de 70 vezes por ano. Desde 2013, a média de 54–72 'barcos fantasmas' da Coreia do Norte encalham nas praias do Japão. Em 2022? O recorde mais alto: 79 barcos. E em 30% deles, as autoridades encontram corpos — principalmente homens com 40–60 anos, magros, ocasionalmente ainda vestindo uniformes de pescador cinza, com marcas de congelamento nos dedos e ouvido.

Por que os pescadores da Coreia do Norte precisam navegar até o ponto de não retornar — apesar de seus barcos não poderem enfrentar ondas de 3 metros?


Nós sempre imaginamos a Coreia do Norte como um país com um exército grande, armas nucleares e propaganda grandiosa. Mas raramente alguém sabe: ela também é um dos países mais dependentes de peixes como fonte de proteína principal — mais de 70% da proteína animal da população dela vem do mar. E é aqui que a tragédia começa.

Desde o início da década de 2000, os barcos de pesca chineses — grandes, com motores a diesel, equipados com sonar e redes antigas — começaram a inundar a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) da Coreia do Norte. Não apenas 'passando'. Eles pescam até 800.000 toneladas de peixe por ano em águas de Pyongyang — um número que supera a quantidade total de pescado capturada por ano pela Coreia do Norte (cerca de 300.000 toneladas). O resultado? Os peixes como o peixe-azul, o peixe-espada e o tubarão — a fonte principal dos pescadores locais — desaparecem da costa deles em menos de uma década.

Então, o que os pescadores fazem? Esperam na doca até seus filhos morrerem de fome? Não. Eles embarcam em barcos de madeira de 20–30 anos — sem GPS, sem rádio satélite, sem flutuadores suficientes — e navegam para o leste-nordeste, para o Oceano Pacífico, às vezes até 300–500 km da costa. Essa distância é equivalente a Kuala Lumpur a Penang… mas em barcos sem motor ou sistema de navegação.

Os 'barcos fantasmas' não estão vazios — eles trazem documentos que fazem os diplomatas japoneses se sentir desconfortáveis


Quando as autoridades japonesas desencalham esses barcos, elas não encontram apenas ossos. Elas encontram: o diário de bordo do barco escrito com lápis azul ('Dia 17: não há peixe. Água restante: 2 litros.'), cartas de suas esposas em casa ('Seu filho mais velho já sabe escrever seu nome') e cartões de identidade dos pescadores com o selo 'Cooperativa de Pescadores da Província de Hamgyong do Sul'.

O que mais choca? Em 12 barcos examinados pela Universidade de Hokkaido (2021–2023), 9 deles tinham selos oficiais do Ministério de Pesca da Coreia do Norte na parte da quilha — não selos falsificados, mas selos de metal autênticos, batidos à mão. Isso significa: não é uma atividade ilegal ou contrabandista. É uma operação oficial — embora os barcos não sejam adequados para navegar.

E sim, há barcos que trazem peixes — mas não peixes frescos. Peixes secos, podres e embrulhados em plástico preto com musgo. Para ser vendido ou para ser comido? Não sabemos. Porque o proprietário já se tornou parte da areia e das ondas.

Por que a Coreia do Norte está em silêncio — e por que o Japão não pode devolver esses barcos?


De acordo com a lei, o Japão pode devolver esses barcos — mas não pode. Por quê? Porque a Coreia do Norte não é um país que reconhece as convenções marítimas internacionais. Não há linha direta de emergência. Não há missão diplomática em Tóquio. E se o Japão tentar devolver os barcos com uma 'nota de acompanhamento', será considerado como uma aceitação de fato da soberania de Pyongyang — algo que Tóquio evita desde as sanções da ONU em 2006.

Então, os barcos são enterrados — literalmente. Os corpos são enterrados na terra japonesa (com permissão especial do Ministério da Justiça), os barcos são queimados ou reutilizados, e os registros são mantidos em um arquivo secreto da Agência de Pesca. Nenhum anúncio de mídia. Nenhum anúncio oficial. Só relatórios internos que dizem: 'Incidente No. 47 — barco de madeira sem identidade, 3 corpos, 24 dias no mar'.

Isso não é sobre barcos — é sobre as pessoas que desaparecem entre as duas linhas da diplomacia


O número real de pescadores coreanos do Norte que desaparecem no mar nunca foi divulgado. Mas com base nos dados da Interpol e da ONG como o HRNK (Comitê para os Direitos Humanos na Coreia do Norte), a estimativa conservadora é de mais de 1.200 pessoas desaparecidas desde 2014. Não mortos em combate. Não executados. Mas mortos por fome, frio e perda de direção — no mesmo mar que enche a mesa deles antes. E o que é mais triste? Alguns barcos encontrados no ano passado ainda tinham bolsas de água plásticas com o rótulo 'Universidade Kim Il-sung' — bolsas de água de bebida de estudantes da universidade elite de Pyongyang. Isso significa: havia alguém que estudou em uma universidade de elite, que sonhava ser cientista ou professor... mas acabou se tornando pescador — não por escolha, mas porque seu país não tinha peixes na costa.

Então, a próxima vez que você ouvir notícias sobre 'tensão na Coreia do Norte', não pense apenas em mísseis e testes nucleares. Olhe para o mar novamente. Em algum lugar, algum barco de madeira velho pode estar navegando — em silêncio, sem luz, sem som — levando não uma ameaça, mas uma pergunta que nunca foi respondida: Se o mar já está vazio, o que mais há para ser pescado?

— Redação do Equador, escrevendo da beira do oceano que nunca está em silêncio.

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