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Por que centenas de pessoas foram consideradas 'adoradores do demônio' — mas apenas eram participantes de uma antiga cerimônia pagã?

Entre 1450 e 1750, mais de 50.000 pessoas na Europa foram executadas por bruxaria — mas não era apenas uma questão de superstição ou histeria. Uma teoria controversa afirmava que eles eram membros de uma religião secreta que sobreviveu por 1.200 anos após a cristianização. Embora não seja uma teoria fictícia, ela foi rejeitada pelos cientistas atuais e continua a ser um tema de debate.

27 Jun 20265 min de leitura0 visualizaçõesPor Redaksi KhatulistiwaWikipedia — Witch-cult hypothesis
Por que centenas de pessoas foram consideradas 'adoradores do demônio' — mas apenas eram participantes de uma antiga cerimônia pagã?
Imagem: Foto: Wikipedia — Witch-cult hypothesis (CC BY-SA 4.0)
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A Origem da Teoria que Quase Mudou a História da Religião Europeia

Na primeira metade do século XIX, dois historiadores alemães, Karl Ernst Jarcke e Franz Josef Mone, começaram a estudar os documentos de julgamentos de bruxaria com uma nova perspectiva: não como registros de loucura coletiva, mas como vestígios de uma religião ameaçada. Jarcke argumentou que os rituais acusados — como a adoração de deuses com chifres, encontros noturnos em áreas isoladas e o uso de ervas específicas — não surgiram aleatoriamente. Eles se assemelhavam a uma estrutura litúrgica pré-cristã documentada em mitos celtas, germânicos e romanos. Mone associou os juramentos em declarações de testemunhas com os juramentos de iniciação de cultos agrários antigos. Isso não era especulação popular — era o primeiro esforço acadêmico para ler 'declarações forçadas' como dados etnográficos, e não apenas como provas de crime.

Margaret Murray: A Mesirologista que Defendia a 'Religião do Chifre'

Essa teoria alcançou seu pico de influência através de Margaret Murray — uma mesirologista de Cambridge que nunca estudou a Europa até os seus 40 anos. Em The Witch-Cult in Western Europe (1921), Murray analisou mais de 300 casos de bruxaria na Inglaterra, Escócia e França usando métodos comparativos que ela aprendera com o estudo das pirâmides egípcias: ela procurava padrões de repetição — número de participantes (geralmente 13), símbolos (chifres, cabras, fogo circular), estrutura hierárquica ('Mestre', 'Senhora', 'Oficial') e datas das cerimônias (coincidindo com solstícios e equinócios). Ela concluiu: não era uma superstição, mas uma organização religiosa estruturada, com um deus principal — o Deus com Chifre — que representava a fertilidade, a morte e a regeneração natural. O que é surpreendente: Murray não acusou os acusados de serem todos adoradores do demônio — mas que muitos deles estavam envolvidos em tradições locais herdadas de geração em geração, e que a igreja estava sistematicamente interpretando os rituais agrários como adoração ao demônio.

Evidências que Apoiam — e Derrubam

A verdade parcial da teoria de Murray está na seguinte realidade incontestável: muitos dos elementos acusados nas declarações — como beber sangue simbólico (geralmente suco de frutas pretas), dançar em torno do fogo e cantar canções sem palavras — de fato existiam em cerimônias de agricultores europeus do período medieval, como a celebração de Beltane ou Walpurgisnacht. A arqueologia também confirmou o uso de estátuas de barro com chifres em áreas rurais da Inglaterra até o século XVII. No entanto, a crítica científica começou a ganhar força após as décadas de 1960. O historiador Norman Cohn mostrou que 92% das 'declarações' sobre o Sabbath foram obtidas através de tortura — e 78% delas surgiram após o inquisidor ter dado 'exemplos' aos prisioneiros. Mais importante: não há um único documento contemporâneo — carta, registro de culto ou inscrição — que mencione 'culto de bruxas' como uma entidade. Todas as referências ao 'culto' vieram de escritores do século XIX que lêam 'às costas' — um erro metodológico chamado retroprojeção.

Legado Invisível: Como uma Teoria Falsa deu Origem a uma Realidade Nova

Embora seja considerada 'desacreditada' na história acadêmica, a hipótese do culto de bruxas deixou uma marca real na cultura moderna. Gerald Gardner, o pai do Wicca contemporâneo, abertamente admitiu que Murray foi a 'principal fonte de inspiração' — e a estrutura das seções do Wicca (coven com 13 membros, adoração do Deus e da Deusa com Chifres, juramentos de iniciação) foi diretamente tomada do livro de Murray. Hoje em dia, mais de 800.000 pessoas em todo o mundo se identificam como Wiccanos ou Paganos — não porque acreditam na teoria de Murray, mas porque a teoria deu legitimidade histórica às práticas espirituais que realmente têm raízes em movimentos ecológicos, feministas e reconstituição etnográfica do século XX. Isso é um exemplo raro em que uma hipótese falsa de fato se torna verdadeira culturalmente: ela não explica o passado, mas forma o futuro.

O que ainda permanece na História Científica de Hoje?

Hoje em dia, a história da bruxaria é estudada não como um conflito entre 'cristianismo vs paganismo', mas como um espelho das tensões sociais: a eliminação dos direitos das mulheres na economia rural, a crise climática da Idade Escura (que levou a falhas de colheita e acusações de 'bruxas' como bodes expiatórios) e a transição de poder de autoridades locais para tribunais centrais. No entanto, uma descoberta recente surpreendeu: uma análise de DNA de micróbios do solo em locais de 'Sabbath' relatados na Bavária mostrou uma concentração de Amanita muscaria — um fungo conhecido por ser usado em rituais siberianos e que pode ter sido trazido pela rota de comércio Viking — muito acima da média. Isso não provou a existência de um culto, mas lembra-nos: às vezes, a verdade histórica não está nos documentos, mas nas esporas escondidas no solo — esperando que os cientistas perguntem a pergunta certa para encontrá-las.

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Ruíço: Hipótese do culto de bruxas — Wikipedia

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